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O artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no Estadão de domingo demonstrando por que não se deve ter medo do passado — ou do legado de seu governo — está correto quase do começo ao fim. Direi por que “quase” em outro post. Qualquer pessoa comprometida apenas com os fatos sabe que ele está certo. Vale a máxima: no governo Lula, o que é bom não é novo e o que é novo não é bom. Vejam lá a ministra Dilma com a cascata das reservas, grandes agora, pequenas antes. Os sucessivos superávits comerciais que permitiram que se chegasse aí derivaram, pro acaso, de ações volitivas do governo Lula? Ora, vão plantar literalmente batatas!
O texto de FHC está corretíssimo (com uma exceção), e ele é, no momento, talvez o político mais injustiçado na história brasileira. Há outros. Falo destes tempos. Parte do prestígio de Lula deriva da desconstrução intelectualmente canalha que se fez do governo anterior. Ponto parágrafo.
Mas acho — e duvido que o ex-presidente, inteligente como é, não atente para o fato — que ele acaba sendo contraproducente para os desafios do futuro ao publicar um artigo como aquele. Não preciso explicar por que isso acaba contribuindo para o jogo do PT. A chance de Dilma — A ÚNICA — ESTÁ EM DESAPARECER ENQUANTO… DILMA.!!! Ela só existe como um avatar de Lula. Goste-se ou não, a construção da figura do Demiurgo foi bem-sucedida. Demandará alguns anos até que seja devolvido à terra.
Os braços e franjas do petismo são longos. Estão na imprensa, por exemplo. Peguem qualquer um desses colunistas “isentos” por aí, e eles só serão capazes de falar mal do governo Lula ajoelhando-se antes do milho: falarão mal de FHC também. Ora, ainda que o petista fizesse uma bobagem antes feita pelo tucano, FHC não é mais presidente. Como diria Horácio, teremos de voltar ao tempo das musas, ao princípio de tudo, a cada que vez que formos analisar o presente? E quem deu a chance ao ex-presidente de satanizar os que o antecederam? Ele nem faria isso. Quando menos, por refinamento intelectual. Não! O tucano, que tirou o Brasil de um buraco histórico, não terá sua obra reconhecida nem pela maioria dos jornalistas, que ou são petistas ou temem a patrulha do partido.
Assim, se seu artigo contribui para, no futuro, repor a verdade em seu lugar, no presente, só serve para unificar o grito de guerra do PT. E Dilma aproveita para fazer de conta que tem voz própria. DIZER QUE ELA NÃO SABE FRITAR UM OVO NÃO É METÁFORA. É só um dado combinado com o fato de que ela é incapaz de articular um discurso coerente. Padece de uma falha básica de raciocínio, que pode ter efeitos dramáticos a depender do lugar que ocupe: não distingue o principal do secundário, a parte do todo. Seu discurso é como seus ovos remexidos. Não obstante, notem que ela saiu “liderando” a ofensiva contra FHC, como se tivesse voz própria. Mas isso ainda é o de menos: Dilma, avatar de Lula, se volta contra quem não está na disputa.
Ainda que o governo tucano não tivesse passado pela desconstrução, ele já está distante da memória. É evidente que boa parte dos eleitores se lembra mais dos “benefícios” dos dois mandatos de Lula. Mais: os anos, vamos dizer, verdadeiramente heróicos de FHC foram os dois primeiros, de consolidação do Real. A tática do confronto de passados, embora permitida, é coisa de vigaristas. Por isso mesmo, FHC deveria tomar cuidado para não acabar sendo instrumentalizado… pelo PT. Seu legado tem de ser defendido? Eu acho que tem. Mas há o momento certo para essa questão saltar para o primeiro plano.
Um artigo certo no momento errado.
Com Blog Reinaldo Azevedo - Veja Online
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