Celso Amorim defende o fim do embargo a Cuba para acabar com greve de fome de dissidentes

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, evitou comentar nesta quarta-feira a declaração em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comparou dissidentes políticos de Cuba a bandidos em São Paulo . No entanto, ele afirmou que o fim do embargo comercial capitaneado pelos Estados Unidos é a forma de acabar com episódios como a greve fome dos dissidentes cubanos.
- A receita é muito simples: acabar com o embargo - afirmou Amorim.
O ministro afirmou que o Brasil está envolvido em melhorar a vida dos cubanos, principalmente, com comércio e investimento. Ele também lembrou que o presidente Lula teve suas razões em fazer tal comentário, mesmo porque Lula teve experiência em greve de fome no passado.
- Uma coisa é você defender a democracia, outra coisa é sair dando apoio a qualquer dissidente. Temos experiências que isso não tem efeito prático. O importante é darmos condições melhores ao povo cubano - disse o ministro.
Nesta quarta-feira, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante, foi duro e classificou as declarações de Lula como "uma comparação despropositada".
- A comparação é despropositada, pois tenta banalizar um recurso extremo que é, ao mesmo tempo, um símbolo de resistência a um regime autoritário que não admite contestações - afirmou Ophir, em nota, acrescentando que "mais razoável seria se o governo brasileiro se preocupasse com as péssimas condições carcerárias a que estão submetidos" os presos brasileiros. ( Clique e leia mais )
Javier Zuniga, diretor da Anistia Internacional para a América Latina, entidade de defesa dos direitos humanos, comentou que a afirmação de Lula pode ter sido feito por desconhecimento do presidente acerca da situação carcerária em Cuba.
- Acompanhamos a situação dos dissidentes em Cuba há anos. Acreditamos que o presidente Lula tem informações equivocadas e estamos prontos para informá-lo sobre os prisioneiros. Temos alguns documentos que mostram o motivo pelo qual essas pessoas estão presas, e o que acreditamos ser prisoneiros de consciência - disse.
Dissidentes decepcionados
O dissidente cubano Guillermo "Coco" Fariñas, que iniciou uma greve de fome no dia 24 de fevereiro para protestar contra a morte de Orlando Zapata, não pode comentar as declarações de Lula.
- Gulliermo está a par das declarações do líder brasileiro - disse ao GLOBO, por telefone, Liset Zamora, porta-voz do psicólogo e jornalista. - Mas ele está muito fraco para dar entrevistas.
Segundo ela, depois de 13 dias sem se alimentar, Fariñas está desidratado e com taquicardia.
- Não nos causa estranhamento que Lula compare presos politicos a bandidos comuns. Ele é um presidente que responde aos interesses do governo cubano - afirmou Liset. - Lula é um cúmplice de Raúl e Fidel Castro.
Manuel Cuesta Morúa, da organização Arco Progressista, disse que declarações como a do presidente Lula só deixam os dissidentes cubanos mais isolados. Segundo ele, como chefe de Estado, Lula cumpre o seu papel de manter boas relações com o governo de Cuba, se encontrando com os Castro.
- Mas ele poderia ouvir os dois lados, para ter uma ideia melhor do que acontece aqui. Chamamos Lula para o diálogo, enviamos cartas para ele, e ele nos ignora, acho isso uma atitude equivocada e que não condiz com o principal líder da América Latina. Um grande líder não vira as costas para violações aos direitos humanos como as que sofremos atualmente em Cuba - declarou o dissidente.
Ângela Góes, Christine Lages, Eliane Oliveira e Mariana Timóteo - O Globo
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